buraco
do que não ousei falar
tampouco me permiti sentir
são dois buracos agora
imaginem bocas com dentes encavalados
e sisos e aftas e a língua queimada
duas bocas que de tão negras parecem ter se apropriado do carvão
para se tornarem mais grotescas
e elas esfarelam e se recompõem
e se materializam, e isso acontece num fluxo perpendicular à cavidade arroxeada da qual isso, boca enquanto buraco, ou buraco enquanto boca, se permite ser e deixar de ser.
(preciso falar desse buraco
é necessário usá-lo como orifício por onde possam atravessar as tais coisas, como uma faringe,
para que ele deixe de ser um buraco, que me pareça mais com um funil. deixando de ser, existo. se me confundo com ele, se me percebo no seu fundo, me rasgo. num estado constante de quebrantamento. )
Paula