quarta-feira, 23 de maio de 2007

Ai de mim, aipim.
(Chacal)


ai de mim, aipim.
ô inhame, a batata é uma puta barata. deixa
ela pro nabo nababo que baba de bobo. transa
uma com a cebola.
aquele hálito? que hábito! me faz chorar.
então procura uma cenoura.
coradinha, mas muito enrustida.
a abóbora tá aí mesmo.
como eu gosto de abóbora.
então namora uma.
falô. vou pegar meu gorrinho e sair poraí pra
procurar uma abóbora maneira
té mais, aimpim
té mais, inhame


Paula

terça-feira, 22 de maio de 2007

Gosto de tevê porque me desperta
Não gosto de tevê porque me deixa dispersa
Força magnética que às vezes é pura forçação de barra que nos torna estáticos
ameaçados.
Algumas vezes, muro; outras, paisagem.
Tevê me faz pensar
penso em desligar
em mudar
para o que gosto, para o que me atrai
Tevê tanto faz...


Paula

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Se olham, se pressentem,
se desejam, se acariciam
se beijam, se desnudam,
se respiram, se deitam,
se cheiram, se penetram,
se chupam, se alteram,
dormem, acordam,
se iluminam,
se cobiçam, se apalpam,
se fascinam,
se mastigam, se provam,
se babam,
se arqueiam, se movem,
se retorcem,
se esticam, se esquentam,
se estrangulam,
se apertam, se estremecem,
se exploram,
se juntam, desfalecem
se repelem, se agarram,
se apressam, se deslocam,
se perfuram,
se incrustam, se ferem,
se martelam, se enxertam,
se atarraxam...
Se revivem, resplandecem,
se contemplam,
se inflamam, se enlouquecem,
se derretem, se soldam,
se calcinam,
se desgarram, se mordem,
se assassinam,
ressuscitam, se procuram,
se esfregam, se afastam,
se escapam e se entregam.


(Oliverio Girondo)

Paula

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Em gotas ela vem, formando largas poças sob meus pés. O meu reflexo, olho de cima, é tortuoso e disforme. Me sinto de cabeça pra baixo, observando o mundo ao contrário, e até parece mais bonito assim. Vou de encontro a mim mesma, tentando achar um meio de unir dois eus. De repente, bem ao longe, surge uma canção. Seu tom é sofredor, e a poesia é das mais belas que já vi, de alguém que, provavelmente, sofreu mais do que eu. Talvez se viu numa poça, observou o mundo ao contrário, se encontrou consigo mesmo e conseguiu unir seus eus através de notas que compõem um jazz cortante. Alegro-me! É possível ser triste e belo; tortuoso, disforme, e, ainda assim, poético. Quero continuar de cabeça pra baixo, olhando tudo ao contrário, vendo as raízes para o alto, e os galhos rasgando o solo. E ser iluminada por estrelas-do-mar, enquanto acontece a união do céu com o oceano.
Paula

quinta-feira, 3 de maio de 2007

sovaco fedorento calo nos pés unhas sujas cabelos ensebados quero andar limpo queria estar perfumado sentindo aroma das flores-do-campo entrando pelas minhas narinas já sujas de uma sujeira feita de poeira suor e alguns desses sentimentos barateados
Paula