quinta-feira, 26 de março de 2009

na vitrola: Jukebox, Cat Power



O ovo é invisível a olho nu. De ovo a ovo, chega-se a Deus, que é invisível a olho nu. -O ovo terá sido talvez um triângulo que tanto rolou no espaço que foi se ovalando. -O ovo é basicamente um jarro? Terá sido o primeiro jarro moldado pelos etruscos? Não. O ovo é originário da Macedônia. Lá foi calculado, fruto da mais penosa espontaneidade. Nas areias da Macedônia, um homem com uma vara na mão desenhou-o. E depois apagou-o com o pé nu.




(trecho de "O Ovo e a Galinha" - Clarice Lispector)




Paula

sábado, 21 de março de 2009

aos gritos, te digo
cai fora, sai da minha reta
eu ergo tijolos pra construir um muro alto, grande, que me proteja,
que não me permita, nem na ponta do pé, te ver do outro lado

tisolotisolotisolo
tisolotisolotisolo
tisolotisolotisolo
tisolotisolotisolo


e pra que tudo isso
se dá pra quebrar?
se o que é resistente mesmo
não é o tijolo


(I'm not here/This isn't happening/I'm not here/I'm not here)


Paula

sexta-feira, 13 de março de 2009

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


Álvaro de Campos



Paula

quinta-feira, 12 de março de 2009

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

(Ricardo Reis)



Paula

terça-feira, 10 de março de 2009

Tu Queres Sono: Despede-te dos Ruídos

(Ana Cristina Cesar)



Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.




Paula

segunda-feira, 9 de março de 2009

na vitrola: "don't wait too long", Madeleine Peyroux

In My Craft or Sullen Art
(Dylan Thomas)

In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labor by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charmsCor do texto
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart. Cor do texto
Not for the proud man apart
From the raging moon I write
On these spindrift pages
Nor for the towering dead
With their nightingales and psalms
But for the lovers, their arms
Round the griefs of the ages, Cor do texto
Who pay no praise or wages
Nor heed my craft or art.




Paula

terça-feira, 3 de março de 2009

do céu do bonde
brotam estrelas
cintilantes
com o cair da noite
ou sóis distraídos
de um
amarelo suntuoso




Paula

segunda-feira, 2 de março de 2009

aos estranhos que fazem com que eu me perca em pensamentos
diplomáticos e concomitantes


gosto da palavra "poeta", de sua sonoridade, do número de sílabas, da afirmação que o "e", sozinho, carrega. poeta não tem gênero - não é como homem ou mulher, masculino ou feminino, fêmea ou macho, apenas é, cria; pode ser primeira pessoa ou terceira de muitas vozes, muitos eus numa viagem apenas. "o" eu, "a" palavra: sexos se misturam na referência a qualquer coisa. tudo pode. inclusive ser poeta. ou trapezista. são nomes, rótulos, (the) Establishment.
difícil mesmo é ser homem
ou/e
mulher.





Sim, nada é mais difícil e delicado, até mesmo sagrado, quanto o ser humano. Nada pode igualar o poder voraz desses misteriosos elementos que, sem grandeza ou finalidade, nascem entre desconhecidos para acorrentá-los em elos terríveis.


(Trecho de "Bakakai", Witold Gombrowicz,
extraído de "O Ovo Apunhalado", de Caio Fernando Abreu)


Paula