terça-feira, 25 de novembro de 2008

"Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente?No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço.A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê."



Em O Ovo Apunhalado - Caio Fernando Abreu


Paula
para meu pai, com quem morri um pouco
(na memória)

como numa fotografia amarelada pelo tempo
ou numa desfotografia
ou na estantaneidade de uma máquina digital:
meu pai, corpo estendido, mãos cruzadas - seus dedos compridos e bonitos -, aquelas flores cujo perfume ele não suportaria, meu pai já não era mais meu pai, era só mais um corpo estendido.
então, o cortejo, a despedida, aquele corpo jogado na gaveta.
senti meu pai se esvaindo numa nuvem de dor
e, com a morte dele,
morri um pouco

e, com a morte do meu pai,
nasci um pouco:
como numa fotografia revelada à moda antiga,
a morte me veio como sendo uma nova vida,
não a de quem parte, mas a de quem fica,
em cuja vida meu pai existe numa nuvem de saudade,
num porta-retrato adquirido nesse jogo bandido,
que a vida insiste em ganhar.

- eu sou a mosca que pousou em sua sopa, eu sou a mosca que pintou prá lhe abusar!
30/05/55 - 05/11/08


Paula

domingo, 2 de novembro de 2008

só queria saber onde me encaixo


andando por aí perdida
pensando nas histórias mais loucas
tropecei numa pedra
e alcancei o chão
limpei os joelhos e continuei andando perdida por aí
me lembrei das meias-calças rasgadas de quando eu era criança
eu, agora, com uma long neck na mão
cabelo de fogo, cabelo cor-de-terra
cabelo de bruxa, de quem tem vento na saia

de quem tem fogo nas ventas
o filme na tv, o coração bem longe
passeando pelas histórias que ouvi por aí
queria ser outra pessoa
nenhuma que existisse
mas diferente de mim
que estivesse livre por dentro
cabeça no que que tá fazendo
sabendo onde se encaixa
as palavras estão empobrecidas
as pessoas estão cada vez mais empobrecidas
eu queria saber o que aconteceu primeiro
como naquela história do ovo e da galinha
cadê o meu lirismo
um dia eu terei estro?
tô cheia da decência
da aderência das coisas
da coerência de mim
só queria saber onde me encaixo
numa fotografia empoeirada
num poema mal-acabado
na minha vida talvez
na minha vida da vez
na minha vida
minha vida
bem-vinda a mim




Paula