terça-feira, 27 de fevereiro de 2007


O Menino Azul
(Cecília Meireles)

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
- de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)

Paula

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Se te Queres Cor do texto
(Álvaro de Campos)

Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

Paula

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007








Por vezes, alguns sentimentos são"amadurecidos" com o tempo, porém, com a ausência ( se ainda existentes) surgem mais fortes, juvenis e generosos...


A saudade é a resposta esperada sobre uma pergunta esquecida...



Estou a aguardar com um "friozinho"
Que aquece a alma,
Quando o vir chegar...
Meus lábios se adornarão
Com um sorriso...

E quando nossos dias juntos
Acabarem...
O quando terá sido transformado
Em sempre...

Intensamente...
Mis


''O amor acrescenta uma preciosa visão aos olhos."
Shakespeare





quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

A vaidade é um prato cheio e gorduroso, pronto a causar indigestão. É preciso policiar-se a respeito, pois se concorremos, é somente com nossa própria existência, por vezes fazendo comparações infundadas. O que vai de encontro a seguinte conclusão:
"Eu sou o pior ser do mundo" (BUAH), o que acredito tratar-se apenas de mais uma tentativa de se sentir mais importante, especial. Afinal, ser o "o pior ser do mundo" a essa altura do campeonato é algo grandioso, eu diria que quase incalculável, levando em consideração que hoje em dia essa competição anda meio acirrada, isso porque nem estou contando com personalidades passadas!
Chegamos a uma conclusão sobre nós e o mundo, sempre usando como meio comparações. Rotulamos tudo e todos, para sabermos mais sobre quem somos (?)... ou, o que somos para os outros (?!).
Somos seres influenciáveis, PONTO!
Alguém começou dizendo o que era bonito, feio, etc,e o resto da humanidade seguiu.
Quem faz de você o que é?

De quem são olhos do mundo?!
Não quero chegar a nenhuma teoria sobre comportamento humano, tampouco, escrever textos "tipo"auto-ajuda, os odeio! O que desejo é reunir meus(?) pensamentos, que de algum modo me preenchem hoje...


A vaidade* é a gula da humanidade!

E... por tentar... explicar...


Recuso-me a escrever,
Tudo já foi dito e assinado
Prescrito ou ridicularizado,

Descreveram o amor
E por ele chorou-se e sorriu,
Por atalhos pecou-se
E por receio surgiu o perdão,

Sucesso e fracasso,
Preto e branco,


Guerrilharam em busca de paz (?).

Oh, mundo de pegadas...
Por vezes minto para inventar a verdade.

MIS




domingo, 4 de fevereiro de 2007

Aproveitando à deixa...

Essa postagem de "Remorso", traz muitas lembranças, entre elas da época do CELAMM, dos professores, dos amigos, do recreio e da fila gigante no dia do risoto...
Espero fazer deste Blog, o qual divido com minha grande amiga, um livro aberto de lembranças, atualidades e tudo que de alguma maneira nos afeta.
Pensando em colégio, me vem a recordação do encontro semanal na quadra, onde todos os alunos cantavam o Hino Nacional, sob o olhar da professora Lúcia... que medo!
Tempos bons esses... mas que me deixaram em dívida com Olavo ( o Bilac), pois tantas vezes ali( na quadra do colégio) repetidas vezes, eu, Paula e todos os alunos ( com exceção dos escondidinhos) cantávamos o Hino Nacional, porém, nunca aprendemos a cantar "teu Hino à Bandeira Bilac"!
E fico a me perguntar:
Quanto mais de conhecimento deixamos para os pombos no pátio?!
Essa saudade é completa?!

O que importa é que cantarei para" Ti Olavo Único" e... para celebrar uma época que jamais voltará, que é lembrada agora, com "teu Hino esquecido"...


Mis

HINO À BANDEIRA NACIONAL


Salve lindo, pendão da esperança!
Salve, símbolo augusto da paz !
Tua nobre presença à lembrança,
A grandeza da Pátria nos traz

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Em teu seio formoso retratas
Este céu de puríssimo azul,
A verdura sem par dessas matas,
E o esplendor do Cruzeiro do Sul.

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever;
E o Brasil , por seus filhos amado,
Poderoso e feliz há de ser!

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Sobre a imensa nação brasileira,
Nos momentos de festa e de dor,
Paira sempre sagradabandeira,
Pavilhão da justiça e do amor!

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!


Música de Francisco Braga
Poesia de Olavo Bilac

sábado, 3 de fevereiro de 2007

Essa letra composta magistralmente por Zeca Baleiro, é dedicada a um Dinossauro que agora está longe,porém, perto...




"A saudade
É um trem de metrô
Subterrâneo obscuro
Escuro
claro
É um trem de metrô
A saudade
É prego parafuso
Quanto
mais
aperta
Tanto mais difícil arrancar
A saudade
É um filme
sem
cor
Que meu coração
Quer ver
colorido
A saudade
É prego
parafuso
Quanto mais
aperta
Tanto mais difícil
arrancar
A saudade
É um filme
sem cor
Que meu coração quer
ver colorido
A saudade
É uma
colcha velha
Que cobriu um
dia
Numa noite fria
Nosso amor em
brasa
A saudade é Brigitte
Bardot
Acenando com a mão
num filme
muito antigo

A saudade vem chegando
Na virada da
montanha... "


Zeca Baleiro

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Pensava em fotografia...


Por que será que algumas pessoas são tão fotogênicas?! Fato realmente admirável, já que comigo ocorre justamente o contrário...
Sempre imagino a melhor cara possível, mas creio que elas devam durar menos que o tempo do flash... "CLICK", é suficiente (desisto!), principalmente com o resultado instantâneo, antes ainda tinha esperança, enquanto aguardava a demorada revelação, agora, nem isso me resta! A grande solução é parecer o mais engraçado e sempre sair fazendo caretas, ao menos se tem o controle sob o resultado final; bem, eu acho!
As pessoas com vigor fotográfico passam a vida toda sendo "bonitas" e saindo bem "na foto". Podemos dizer que temos em nossa sociedade verdadeiros ladrões de fotografias, eles estão por toda parte, tomando conta de qualquer espaço visual. Sabem como fazer cada gesto, cada olhar... E você meu amigo, assim como eu, não terá nenhuma foto decente para mostrar a seus netos...
Esses indivíduos que se cuidem, pois vivemos em uma nação democrática(?), onde pessoas não podem ser atropeladas por uma leva de impressões repetitivas. Além do mais, propaganda enganosa:
É... C-R-I-M-E!!!
"Fotografia é arte", alguém falou, o que concordo em todos aspectos, é arte que capta o momento , um gesto que provavelmente não se repetirá. Mas, o que custo a enxergar é como em nosso fotogênico país, há tantas fotos iguais de coisas desiguais, temas maçantes... diria que são verdadeiros “déjà-vu” fotográficos!
Vejo pessoas com mãos aos bolsos, entrando em bancos, saindo do país, acenando com uma mão, negando com a outra. Fome em todas cores... vejo por toda parte essas fotos atemporais.
Que figuras são essas?!
Vejo o grande retrato da injustiça, a escassez do suor, a falta de amor ...
Aonde está a fotografia do respeito?!Dignidade?!
...O retrato da justiça estampa um papel amarelado e antigo, onde só há o preto e branco... e fará parte da próxima exposição de fotos raras...
CANSEI!!!
Quero ver fotos ( de arte), onde o sol apareça lindo, explodindo luz através de uma estreita fresta....com charme cubista....QUADRADO!
MIS